E ACÁCIO CONHECEU A MELANCOLIA
Clauder Arcanjo*
(São Jerônimo em seu estudo, de Albrecht Dürer)
Escutar antigas vozes
humanas
vozes também
do vento nas casuarinas
no vasto tamarindeiro.
(Poema “Vozes”, de Ruy Espinheira Filho.)
Acácio foi surpreendido pela tristeza no último domingo. Ela se chegou enquanto Companheiro tentava a soneca da tarde, deitou-se ao seu lado e começou a incomodar-lhe os miolos.
De início, as recordações da província: o jogo de pelada na areia do rio, os banhos de chuva nas bicas dos antigos casarões, a corrida com os vizinhos pelas ribeiras do Acaraú. Tanta felicidade revisitada trouxe a primeira lágrima. Esta apenas molhou o canto dos olhos. Companheiro Acácio se levantou, abriu a janela e deparou-se com uma cidade silenciosa, como se em comunhão com o sentimento que lhe pungia o espírito.
Não satisfeita, a tal melancolia armou-se ainda mais. Lembrou a Acácio que o tempo já lhe fizera calvo, ele que tanto se orgulhava da cabeleira negra da juventude. O que é pior, mostrou-lhe que, agora, morava cada vez mais distante dos seus. Retido numa metrópole estranha, preso ao silêncio de um quarto de hotel, restando-lhe tão somente o lençol das reminiscências; mas este, enquanto lhe cobria o corpo, parecia espetá-lo com os espinhos do desgosto.
Acácio resolveu descer. Na recepção, ele puxou conversa com a turma do atendimento; em seguida tomou um café, tentou exibir um sorriso, porém tudo se lhe revelou inútil. Antes que as lágrimas brotassem diante de estranhos, decidiu retornar para o seu quarto. Mal abriu a porta e se deparar com a sua imagem no espelho, os lábios tremeram, e o choro lhe fez companhia.
— Companheiro, calma! O que está havendo com você?
Indagou a si mesmo, para ele próprio responder:
— Preciso tirar esta tristeza do meu caminho!
Sentou-se na cama e tentou cantar. A voz não saía, a garganta mais se fechava. Desistiu daquela saída e abriu um livro de contos: em cada página só despontava para aqueles olhos sentidos a trágica e sofrida desdita das personagens.
Ligou a tevê e concentrou-se nas chatices das tardes de domingo. Em vão.
— Assim não dá! Não há cristão que aguente!
Sacudiu o corpo, trocou de roupa e se meteu num táxi.
— Para onde vamos, senhor? — indagou-lhe o motorista.
Companheiro Acácio caiu num silêncio intraduzível.
— Senhor?
— Sim.
— Qual o destino?
— O destino? Bom, o meu é a felicidade.
E o taxista parou na próxima esquina. Ficaram os dois a recordar passagens da vida. No rádio, a canção “Ouça”, na voz de Maysa:
Quando a lembrança
Com você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar
*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.