O alienígena (Parte XI)
Clauder Arcanjo*
Pintura A Papillon, de Henriëtte Ronner-Knip.
Vários leitores protestaram, pedindo que eu trouxesse o cachorro Goiaba de volta a esta trama, inclusive restabelecendo a sua condição de herói canino.
Confesso que argumentei. Explicando a todos que o Goiaba teria um papel menor, um mero coadjuvante, apenas para reforçar uma cena antiga e, principalmente, recuperar a presença do Federardo, que, por falha minha, sumira desde o primeiro capítulo.
Qual o quê! Quanto mais eu defendia os meus argumentos de escriba, mais o pessoal reforçava os seus clamores:
“Goiaba! Goiaba!…”
Então, rendi-me.
Mas como farei?
Nem eu sei. Esta trama nasce como aquelas plantas que, milagrosamente, reverdecem no seio do deserto. Neste meu caso, no deserto das ideias fabulativas. Se o que narro resistirá ao tempo, crítico mais certeiro e impiedoso de todos, só os anos dirão. No momento, atendo aos pleitos e sigo em frente.
Pois muito bem, vejamos.
& & &
Eis que surge um novo personagem: Porfírio Costabrava Príapo.
Porfírio, conhecido pelas meninas do Caneco Amassado pela sua virilidade incomum e pela tez de ébano, saía do prostíbulo de Licânia quando deu pela presença do Goiaba, seguido à distância pelo Federardo. Ambos na corrida do medo.
Porfírio, do alto da sua coragem advinda dos deuses da Mãe África, ordenou:
— Parem e me respondam: para onde vão? E o que os aflige?
Goiaba, tocado pela energia do medo, quase não conseguiu frear. Federardo, vindo logo atrás e não reduzindo a velocidade, foi contido por um safanão nas costas do mestre Porfírio. Este, de pronto, advertiu-o:
— Se o dono for um amedrontado, o pobre cão, fiel companheiro, também o será. Contenha-se, cabra frouxo! Seja digno! Aqui, Goiaba. Calma, calminha!
— Mas eu sou frouxo desde nascença. Deixe-me fugir! O alien…
Porfírio deteve Federardo segurando-o pela gola da camisa, enquanto assoviava notas de tranquilidade para Goiaba:
— Que cachorrinho lindo! Ui… ui… Deve ser tão valente quanto o cão de Ogum.
Goiaba, ao se sentir prestigiado, diminuiu os tremores das pernas e uivou baixinho:
— Auu!… Auuu!…
— Mais alto, mais alto! — incentiva Porfírio. — Cãozinho como você não deve temer nada nem ninguém. Vamos, mais alto!
— Au!… Au!… Au!… Au, au!…
Até Federardo sentiu-se mais encorajado. Porfírio, ele não sabia bem explicar o porquê, transmitia aos dois fujões a bravura que há pouco se perdera.
Nesse uivar daqui e incentivar do Porfírio acolá, Federardo e Goiaba acharam-se prontos a enfrentar os desafios que viessem.
Bastou o silêncio mostrar o seu rabo na sombra da árvore, debaixo da qual tudo aquilo se passava, para que…
— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…
Federardo resistiu dez segundos, apenas o suficiente para ordenar ao Goiaba:
— Parta para cima dele, Goiabão! Para cima dele!
O Goiaba, ao procurar por Porfírio Costabrava Príapo e perceber que o cabra já renunciara à sua tão propalada coragem, não contou até três (até porque, pelo que eu saiba, cachorro não sabe contar!) e… desabou de mata afora.
— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…
— Esperem por mim! — gritou, apavorado, o pobre Federardo.
— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…
E por mim, também!
Não quero mais saber desta novela. Tenho que salvar a minha pele.
Não adiantou de nada eu trazer o Goiaba de volta.
“E o seu compromisso com a literatura?!”
Quanto à literatura, leitor, que ela vá para… o quinto dos infernos.
— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…
*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.