Os Estados Unidos, a Europa e o “caso Groenlândia”

“Yankees go home”, dizia a faixa em frente ao consulado dos Estados Unidos. Erguida por um grupo de manifestantes, ela definia o espírito político do evento. O grupo não era muito grande, mas também não era pequeno. E estavam visivelmente irados.

Por RFI

Flávio Aguiar, analista político

Não, não se trata dos anos 60 do século passado, nem de uma cidade latino-americana. Os irados manifestantes eram cidadãos dinamarqueses, pertencentes à União Europeia. O local era Nuuk, a capital da Groenlândia, e o grupo protestava contra a futura visita do vice-presidente norte-americano, James David Vance, a uma base militar e aero-espacial dos Estados Unidos em seu território.

A visita, que se realizou na sexta-feira da semana passada, 28 de março, coroou uma série de atritos diplomáticos envolvendo a Washington de Donald Trump, o governo de Copenhague e o governo do território autônomo da Groenlândia, que faz parte da Dinamarca. Durante a estada na base, Vance fez um pronunciamento reafirmando o interesse de Washington na ilha e desqualificando o governo dinamarquês, acusando-o de negligência em relação aos habitantes dela.

Acontece que a ilha é rica em minérios, gás e petróleo. Tem uma posição estratégica entre os continentes europeu e norte-americano, e o oceano Ártico, sendo que do outro lado deste está nada mais nada menos do que a Rússia, a antiga União Soviética, no passado a arqui-inimiga do capitalismo do Bloco Ocidental liderado pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os Inuites e outros povos da região a ocuparam desde séculos antes da era cristã. A partir do século X desta era ela passou a ser visitada regularmente por europeus, e terminou como posse dos reinos unidos da Noruega e da Dinamarca. Quando estes se separaram, no século XIX, ela ficou com a Dinamarca que, depois da Segunda Guerra, lhe deu o status de território autônomo, embora a sua moeda seja a coroa dinamarquesa e seu rei, o da Dinamarca, hoje o sorridente Frederico X. E tanto no final do século XIX como em meados do século XX, os Estados Unidos já pensaram em comprar a ilha. Hoje, Trump ameaça ocupá-la, se não conseguir comprá-la.

Reações negativas

O fato é que as ameaças de Trump provocaram reações negativas tanto por parte de Copenhague quanto por parte dos groenlandeses, ciosos de sua autonomia.

Vance e sua esposa planejavam fazer uma visita oficial e ampla à ilha, acompanhados por uma comitiva de secretários de estado. Diante da reação negativa e do risco de manifestações hostis nas ruas, o casal encolheu a visita, limitando-a à base norte-americana de Pituffik, no extremo norte da ilha.

O interesse dos Estados Unidos é tanto econômico quanto militar.  Consideram a ilha estratégica para detectar ameaças que venham pelo Ártico. O interesse econômico cresce com o aquecimento global, que deve facilitar a navegação com a redução da calota de gelo.

Mas para os groenlandeses uma ocupação sob Trump seria um desastre. Afinal, nos Estados Unidos de hoje, eles seriam considerados como “índios”, ao invés de cidadãos como os outros, apesar das promessas de Vance em contrário.

Além disto, a Groenlândia tem uma legislação considerada avançadíssima em matéria de direitos humanos, sobretudo em relação a pessoas não heterossexuais, o que Trump abomina e detesta.

Consta que ao descer na base, Vance declarou algo assim: “God, it’s cold like shit”, o que equivale a dizer “Meu Deus, está um frio do cão”, numa tradução amena. Não se sabe se ele se referia apenas à temperatura ou também à recepção gelada por parte dos cidadãos da Groenlândia.

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