Série da Netflix reacende debate sobre regulação das redes sociais
Quantas tragédias ainda precisarão ocorrer para que a sociedade compreenda os riscos do ambiente digital sem regulação? A série da Netflix Adolescência tem repercutido amplamente ao contar a história de um menino de 13 anos, vítima de bullying e das redes sociais, que assassina cruelmente uma colega de sala. O garoto, exposto constantemente a conteúdos misóginos, teve sua ira, seu ódio e seu desprezo por mulheres alimentados até o ponto da violência extrema.
Os pais, também vítimas do desconhecimento sobre o que circula no ambiente digital, sentiam-se confortáveis porque o filho só ficava em casa. Sem uma noção clara dos perigos da internet, não perceberam que o risco morava dentro de seu próprio lar.
A repercussão da série está reacendendo o debate sobre a urgência de combater e limitar conteúdos que disseminam mensagens de ódio, misoginia, violência, desinformação e até crimes como pedofilia.
Atualmente, as big techs não são monitoradas, controladas ou fiscalizadas. O espaço que, em sua origem, prometia democratizar a produção e o acesso à informação se transformou em um território descontrolado, onde algoritmos priorizam o que gera engajamento, independentemente das consequências sociais. Esse modelo tem impulsionado distorções profundas na sociedade, afetando desde comportamentos individuais até estruturas econômicas e políticas.
As plataformas digitais não são apenas espaços neutros de circulação de informações, mas verdadeiras arquiteturas de controle da atenção que visam o lucro. O modelo de negócios se baseia na captação e no processamento massivo de dados dos usuários para alimentar algoritmos que amplificam conteúdos capazes de gerar reações emocionais intensas e garantir, cada vez mais, dinheiro para as empresas. O problema é que, na prática, essa lógica prioriza discursos polarizadores e sensacionalistas, pois são esses que mais prendem a audiência e geram engajamento.
Além disso, há uma resistência significativa por parte das big techs em adotar mecanismos eficazes de regulação. A justificativa frequentemente usada é a defesa da liberdade de expressão, mas, na realidade, a ausência de fiscalização tem permitido que essas plataformas se tornem ferramentas de propagação de discursos de ódio, manipulação política e crimes como exploração infantil. Países como a União Europeia já avançaram na regulamentação desse cenário, com medidas como o Digital Services Act, que obriga plataformas a moderar conteúdos prejudiciais e garantir maior transparência sobre seus algoritmos. No entanto, essas iniciativas ainda enfrentam forte oposição de grupos que lucram com o caos informacional.
Se o impacto da desinformação e da radicalização nas redes sociais pode ser devastador em nível individual, como no caso retratado pela série, em escala coletiva as consequências são ainda mais alarmantes.
E a política tornou-se uma das principais vítimas desse modelo digital. Estratégias de microtargeting – que segmentam conteúdos para diferentes grupos de eleitores – têm sido amplamente utilizadas para manipular a opinião pública, explorando emoções como medo e indignação. O caso do Brexit e a eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos são exemplos claros desse fenômeno. Empresas como a Cambridge Analytica usaram dados extraídos de milhões de perfis para criar mensagens altamente personalizadas e persuasivas, reforçando bolhas ideológicas e aprofundando a polarização social.
Esse cenário escancara um problema fundamental: as redes sociais não são apenas ferramentas de comunicação, mas agentes que moldam ativamente os debates públicos e influenciam comportamentos eleitorais. O monopólio da informação por essas plataformas, sem qualquer transparência sobre os critérios de distribuição de conteúdo, levanta questões éticas sobre a legitimidade dos processos democráticos contemporâneos.
Casos de manipulação promovida nas redes sociais e a propagação de discursos de ódio, violência, pedofilia, prostituição e desinformação continuam a se multiplicar, sem que avanços concretos sejam feitos para conter esses problemas. Os algoritmos que determinam o que viraliza nas plataformas são projetados para priorizar conteúdos polêmicos e altamente emocionais, tornando o ambiente digital um terreno fértil para a radicalização e a desinformação.
As redes sociais são espaços capazes de personalizar ao extremo o que cada usuário consome. No entanto, como alerta Santaella (2019), essa hiperpersonalização gera “bolhas-filtro”, “câmaras de eco” ou “salas espelhadas”, onde cada indivíduo é exposto apenas a conteúdos que reforçam suas crenças e valores preexistentes. Dessa forma, as redes não apenas refletem nossos desejos e opiniões, mas os amplificam, criando uma ilusão de unanimidade que dificulta o pensamento crítico e o debate plural.
A diversidade de informações é menor nas redes sociais do que nos motores de busca tradicionais, o que aumenta a chance de os usuários caírem nas armadilhas das bolhas informacionais ao buscar notícias exclusivamente dentro dessas plataformas.
Diante desse cenário, é fundamental avançar com medidas que mitiguem os impactos negativos das redes sociais na sociedade. Um dos caminhos mais urgentes é a regulamentação dos algoritmos de recomendação, garantindo transparência sobre os critérios que determinam a priorização de conteúdos. Além disso, a educação midiática deve ser incorporada ao currículo escolar, capacitando crianças e adolescentes a desenvolver pensamento crítico sobre o que consomem no ambiente digital.
Mais do que uma questão tecnológica, o descontrole das redes sociais representa uma ameaça concreta à democracia, à segurança pública e as relações sociais. As plataformas precisam ser responsabilizadas, e a sociedade deve cobrar uma governança digital que equilibre liberdade de expressão e responsabilidade pública antes que novas tragédias aconteçam.
Vanessa Marques é jornalista e atua há 20 anos na comunicação política. É mestre pela Universidade de Valência na Espanha, e cursa o seu segundo mestrado onde pesquisa a espetacularização na política, o neopopulismo, desinformação e a plataformização do discurso da nova direita conservadora. Atualmente, também integra o grupo de pesquisa na UNB sobre eleições e democracia.
Por Vanessa Marques
@vanessamarques